terça-feira, 27 de setembro de 2016

A SUL


AQUI ESTOU EU (A SUL) A COMER PEIXE GRELHADO

 


Procuro a rude serenidade que me permita viver o tumulto do ser. Procuro as raízes ensombradas que perseguem sem descanso o negrume da luz. Procuro um centro a partir do qual possa desenhar um círculo mais que perfeito. Procuro o silêncio necessário para despertar as palavras que dormem no branco da folha. Procuro a distância necessária  para me aproximar de mim próprio e do mundo.

Tavira, 28 de Junho de 2016

 

 

Aqui estou eu (a sul) a comer peixe grelhado, dizia a legenda, e a fotografia mostrava um homem de meia idade (com mais de sessenta anos), magro e com fartas barbas grisalhas, de óculos escuros, tronco nu, calções e chinelas. Seria um poeta? Um filósofo?

Estava num pátio e à sua direita, atrás dele, avistava-se um grelhador. Não me lembro de muito mais, a frase intrigou-me mais do que a fotografia, se assim o posso dizer, nem sei bem porquê.

Aqui estou eu a comer peixe grelhado, uma frase banal, mas a que a menção “a sul”, entre parênteses, me pareceu conferir-lhe um indefinível mistério. Depois, claro, há a fotografia, que reflete e/ou aumenta o mistério. O homem, vou chamá-lo Virgílio (não me perguntem porquê), não está a comer peixe grelhado nem se vê qualquer peixe à vista. Vê-se o grelhador, é verdade, mas até parece apagado. E Virgílio está só. Aqui estou eu, diz ele, como se estivesse admirado de estar ali (a sul). Estará reformado e procurou o sul, ou estará apenas de férias? E onde será aqui? Talvez o melhor seja perguntar-lhe.

“Virgílio, onde é aqui?”, pergunto, e Virgílio olha-me em silêncio, como a avaliar se vale a pena responder-me. Insisto. “Virgílio, onde é aqui?”, mas ele parece desinteressado e volta-se para o grelhador atrás dele.

Aqui é sempre onde um homem está, ouço, mas sou eu que o penso, e não Virgílio, ainda que acredite que ele o poderia dizer, ou até escrevê-lo.

Aqui é sempre

onde se está,

aqui e agora,

diz Virgílio, enquanto observa o grelhador. Diz e repete, que não lhe apetece agora sair de onde está, e não tem consigo nada com que escreva, que papel até arranjava, bastava procurar na carteira que está no bolso esquerdo das calças, o da frente, claro. Talvez seja o princípio de um poema ou, quem sabe, de uma pequena história. Aqui é sempre onde se está, repete, aqui e agora, e acrescenta, mas ele não estava ali e muito menos agora. Volta a olhar para o grelhador. Está quase, diz e repete, está quase.

Ele está ali e vejo-o cada vez melhor. Mas onde é o ali que Virgílio chama aqui? A sul, afirmava ele, e eu digo-o no Algarve, não sei bem onde, talvez em Tavira, nem sei bem porquê. Olho-o  mais vez, olhos nos olhos, tentando lembrar-me do que nele me intrigou.

“Estás a enganar-te”, ouço. É Virgílio que fala comigo.

“Conheces a pessoa da fotografia e estás a introduzir em mim, que sou uma personagem de ficção, alguns traços e circunstâncias dessa pessoa real.”

Hesito em responder, mas ele continua a olhar-me à espera de uma resposta, digo-lhe que a ficção é mesmo assim, mistura-se realidade e imaginação, para dar força à mentira, para dar força à verdade; é assim mesmo que se faz. Ele parece ir responder, mas volta-me as costas e vai ver o lume. Está quase diz, está quase, e volta a olhar-me, para minha surpresa.

“Mas eu não sou essa pessoa que tu conheces, disso tenho a certeza e, embora nada saiba dele, sei de mim, e muito do que avançaste não sou eu nem são as minhas circunstâncias.”

Espero que continue, mas ele cala-se, e só passado algum tempo acrescenta, com um tom entre o pedido e a ordem, “O que quiseres saber, pergunta-me”.

“Já te tinha perguntado. Não me respondeste.”

“Queres saber onde é aqui? Era essa a tua pergunta?”

Assenti com um breve aceno de cabeça e esperei em vão por uma resposta que tardou a chegar.

“Não te vou dizer onde é aqui, isso é pouco importante e tu sabes que é no Algarve. Deixo à tua escolha o lugar exato, assim como outras considerações que só a ti competem, mas deixa-me que te diga que não sou escritor como tu, e atribuíres-me a criação de textos que são teus parece-me incorreto.

“Virgílio, é esse o teu nome, não é? Ou será que me enganei?”, perguntei-lhe com arrogância.

“É sim. Esse é o meu nome”, respondeu com alguma rispidez.

“Se não te importas vou retomar a minha narrativa. Sei muito bem que terás sempre a última palavra, mas cada coisa a seu tempo, se não te importas”

 

*

 

A fotografia é só um ponto de partida. E talvez mais do que a fotografia, a legenda seja ela mesma um  ponto de partida e um trampolim. Decido retomar a frase inicial e com ela dar inicio a um novo parágrafo e também um novo rumo a esta narrativa.

Aqui estou eu (a sul) a comer peixe grelhado, isto pensou Virgílio, ou talvez o tenha mesmo  dito em voz alta. O que quereria ele dizer? Que estar a sul é comer peixe grelhado? Peixe fresco, peixe que ele próprio pescou? Estar a  sul é ser livre, por oposição a uma outra vida. Será isso? Estou a sul e como peixe grelhado, que  é assim o mesmo que dizer estou no sul e sou livre, olhem para mim a experimentar a liberdade.

No dia anterior foi com um amigo de longa data à pesca, à noite, e divertiu-se bastante, tanto mais que foi ele que apanhou o peixe maior, o mesmo que vai agora comer com o amigo, este que lhe está agora a tirar-lhe a fotografia, um ar sério, o olhar em frente, as brasas a esperarem o ponto certo no grelhador. Queria tirar uma fotografia com o peixe mas o amigo recusou-se, a rir, chamou-lhe arrogante, convencido e lisboeta.

“Já escalei o peixe, agora é que a fotografia está fora de questão. Isso de tirar fotos com o peixe que se apanhou é coisa de americanos e de rabetas.”

Estão a beber cerveja e já lhes perderam a conta, mas o amigo teve o cuidado de esconder as garrafas para que não aparecessem na fotografia.

“É preciso manter uma imagem, isto de ser livre tem as suas responsabilidades”

O amigo não nasceu a sul, mas o seu pai e o seu avô sim, e pertence a uma longa e corajosa linhagem de pescadores e de bêbados. O Algarve não é só mar, mas quando Virgílio pensa em sul, pensa no mar, pensa no azul banhado de luz.

“Estar a sul não é comer peixe grelhado, mas comer peixe grelhado que nós mesmos pescámos. Assim é que é devia ser.”

“Tens razão, Virgílio, meu grande cabrão, mas quem é livre não precisa de se afirmar livre e muito menos precisa de tirar e mostrar nas redes sociais a sua liberdade.”

“Já que sou cabrão, ao menos que seja grande.”

Virgílio ri, está feliz, está no sul e sente-se livre. Apanhou o seu próprio peixe, tem o amigo de longa data consigo. Vão grelhar o peixe, comer e beber até fartar.

 

*

 

“Aqui estou eu (a sul) a comer peixe grelhado. E o importante é estar a sul, o sul como espaço de liberdade, o sul como estado de felicidade bruta, felicidade que não só inclui a melancolia mas até a suporta. Por isso escrevi sul entre parênteses, se é que me faço entender.”

Virgílio olha para mim com um sorriso aberto, uma cerveja em cada mão. Estende-me uma e eu aceito. Bebo pela garrafa uma longo gole gelado.

“Já acabaste de escrever?”

“Nunca se acaba de escrever, tu sabes que é assim. Só se acaba de escrever quando se morre. Ou será o contrário?”

Batem as garrafas uma na outra e bebem as cervejas até ao fundo.

Está quase, está quase.

 

sábado, 24 de setembro de 2016

GURU DE ALGIBEIRA


VII

 

Não te distraias, nunca te distraias, a vida pede constante atenção, a vida exige plena concentração. Nunca te esqueças que, aconteça o que acontecer, só tu podes dar sentido à vida.

 

VIII

 

Ri de ti próprio. Ri sempre de ti próprio. Ri de ti próprio mesmo quando te ris dos outros. Se tudo te corre mal, é porque ainda estás vivo. Aproveita e vive o melhor que podes. Viver o melhor que podes é levar a vida a sério. Rir de nós próprios é sempre levarmo-nos muito a sério.

 

IX

 

É tão fácil compreender quanto é difícil compreender. Não percebes porquê? Talvez porque não seja do domínio da compreensão, mas do domínio da fé. E a verdade é que tu preferes duvidar a acreditar, ainda que, em ti, tal não seja mais do que acreditar na ilimitada superioridade da dúvida.

Pois eu duvido, sobretudo, da própria capacidade de duvidar, e essa é talvez a minha maior certeza. Duvido muito, é verdade, mas acredito ainda mais, muito, muito mais.

 

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

terça-feira, 20 de setembro de 2016

9 ANOS DEPOIS

 
a
 
 
Nove anos depois, já esquecera há muito a mulher que em tempos amara, mas ainda sonhava todos os dias com o homem que fugira com ela.
 
a
 
Nove anos depois, ainda se lembrava dela como se a tivesse visto no dia anterior. Fazia nove anos que a matara.
 
a
 
            Nove anos depois ainda a visitava todos os dias no cemitério. Chegava e murmurava: ainda não me arrependi de ter morto. Depois ia-se embora.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

O GURU DE ALGIBEIRA

IV

Pratica com tenacidade a indiferença, procura sempre manter-te indiferente, ainda que assim não te sintas. Edifica a indiferença como quem escreve um poema, como quem ergue um muro, com muito cuidado, com redobrado cuidado. Muro que te protege, muro que guardará em ti, intacta, toda a tua paixão.

V

Quer tudo queira da vida, quer nada queira da vida, só há uma coisa que verdadeiramente preciso. Ia escrever “paixão”, ainda escrevi “paixão”; mas o que eu sinto, o que eu quero mesmo dizer, é que tudo o que eu preciso é estar vivo.

VI

Inspiras e expiras, tomas e devolves, é isso que fazes: respiras. Tomas e devolves à vida; tomas, transformas e devolves à vida. E nesse processo transformas-te também; inspiras-te e expiras-te: respiras. É assim a tua vida, é assim que tu és.


sexta-feira, 16 de setembro de 2016

O GURU DE ALGIBEIRA

I

Não há princípio nem há fim, existem só princípios e fins. Cada princípio anuncia um fim, cada fim revela um princípio. Na vida, como na escrita, é sempre tão difícil terminar quanto é fácil continuar, porque todos sabemos, mesmo quando de todo o ignoramos, que não há princípio nem há fim.

II

Muito do que te acontece pode parecer-te imprevisto, mero resultado do destino ou do acaso, mas a verdade é que tu estás a caminho. Podes até não ter escolhido o caminho, mas escolheste caminhar. Podes até não saber aonde esta atitude te levará, mas sabes que, chegues onde chegares, será sempre a ti que chegarás.

III

A vida é sempre um puro processo de teimosia, de rigor, de autoconsciência, quer seja escrever um poema quer seja limpar o chão da cozinha. Processo lento mesmo quando avança rápido, processo feito de pequenos gestos mecânicos que a si mesmos não se corrigem, processo maior em que te envolves cada vez mais até seres tu o processo.


FNAC DE FARO


ALTERNATIVAS

Comunidades auto-suficientes: é possível viver de outra forma

Em “Que Estranha Forma de Vida”, Pedro Serra viaja por três comunidades, em Portugal e Espanha, que criaram alternativas à sociedade actual. Depois de exibições em festivais nacionais e internacionais, o documentário vai estar online ainda em Janeiro
Texto de Ana Maria Henriques • 08/01/2016 - 19:19
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Nos primeiros cinco minutos de documentário, chegamos a Cabrum: árvores e vegetação rasteira, construções antigas em pedra, muita água. Um espanta-espíritos, um gato e alguns brinquedos perdidos na berma de um caminho mostram-nos que, no meio da natureza, vivem adultos e crianças, que se passeiam sem roupa num dia de Verão. É assim o início de “Que Estranha Forma de Vida”, documentário de Pedro Serra e Laura Pazo que acompanha a vida em três comunidades sustentáveis e auto-suficientes da Península Ibérica: Cabrum e Tamera, em Portugal, e a Cooperativa Integral Catalana em Barcelona, Espanha. Depois de ter sido exibido em festivais nacionais e internacionais, vai estar disponível online ainda durante o mês de Janeiro.

Em 2014, o realizador e a produtora passaram cerca de uma semana em cada um dos grupos. Decidiram reduzir a equipa de filmagens ao mínimo indispensável para proporcionar “uma maior aproximação das pessoas”, algo que não seria possível com “uma equipa dita ‘normal’ para uma longa-metragem”, explica Pedro ao P3. Fizeram questão de experimentar, de facto, a vida em comunidade; nem sempre filmavam, aproveitavam para passar tempo com os habitantes. É por essa razão que, em “Que Estranha Forma de Vida”, espreitamos as refeições — com produtos biológicos —, ouvimos as músicas e as conversas e vemos as actividades destas “formas de vida paralelas à sociedade tal como a conhecemos”.

“Quando se vive num espaço assim, é bastante intenso”, descreve o jovem realizador de 24 anos, para quem tudo foi novidade. “Quem vive numa cidade não tem que falar com as pessoas com quem se cruza na rua. Ali estás sempre a lidar com egos e o tempo ganha outro sentido.” A produção do documentário foi totalmente independente e a exibição em festivais nos Estados Unidos, no Brasil, em Inglaterra, na Croácia, na Estónia e na Roménia mostrou o interesse do público no tema. No Cinantrop — Festival Internacional de Cinema Etnográfico de Leiria-Lisboa, venceu o prémio revelação.

Pedro, “vegan há três anos e meio”, já tinha presente os ideias destas comunidades (auto-sustentabilidade, paz, auto-suficiência, harmonia e cooperação entre ser humano, animal e natureza). A pesquisa sobre o tema fê-lo perceber que é “realmente possível criar alternativas positivas” e ver a aplicação prática dos ideais entusiasmou-o.

Se em Cabrum — uma aldeia portuguesa abandonada e recentemente habitada por um grupo de pessoas com vontade de criar um projecto sustentável — as filmagens foram complicadas, em Tamera entrevistou vários habitantes (sobretudo alemães). A eco-aldeia de Cabrum é “bastante fechada”, revela, por uma questão de preservação da privacidade e da autonomia da mesma, mas o trabalho que fizeram “é impressionante”. Quatro anos depois, Cabrum viu nascer quatro crianças. Já Tamera, no Alentejo, vê-se como um “biótipo para a cura global de consciência” e é a mais antiga aldeia do género na Europa, pois já perfaz 20 anos.

De Portugal para Espanha, Pedro e Laura viajaram até Barcelona, onde, bem perto da Sagrada Família, uma cooperativa ocupou um prédio no qual promovem várias actividades. O objectivo da Cooperativa Integral Catalana é provar que esta filosofia de vida sobrevive ao (e no) meio urbano. Praticam uma “auto-gestão com moeda própria”, o Eco, e procuram usar o Euro apenas em situações indispensáveis. Aconselhamento por advogados, aulas de informática e de permacultura são apenas alguns dos serviços que oferecem ou trocam.

O jovem natural de Proença-a-Nova e formado em realização pela ETIC falou, ainda, com Rui Vasques, que criou um modelo de vila ecológica e sustentável aplicável em qualquer parte do mundo, a “Eco-Village Community”. “Um dia gostava de viver desta maneira, numa comunidade, de acordo com os meus ideais, onde pudesse produzir o meu próprio alimento”, confessa Pedro. Enquanto esse momento não chega, está já a pensar em dois temas que gostava de abordar: o “freeganismo” e o movimento Okupa.
http://p3.publico.pt/cultura/filmes/19350/comunidades-auto-suficientes-e-possivel-viver-de-outra-forma
https://vimeo.com/122685684

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

...

Procuro um centro
um destino
um alívio
Deixo que as palavras
surjam e se escoem
tingindo de silêncio
a angústia dos dias
Regresso
renovado
ao ponto de partida

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

POEMA DE AMOR



 E quando terminaram?

Em Agosto!

De que ano?

De que ano? Não sei!

Apenas sei que era Agosto

estava calor

demasiado calor

e eu não aguentava

mais.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Aforismo

Aforismo: livro de mil páginas.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

MARIM REVISITADO


Vem daí, vem comigo

escreverei com todos os sentidos

de fora para dentro, de dentro para fora

para que me possas seguir com facilidade

 

Na linha do horizonte à minha frente

mar e céu fundem-se e confundem-se em azul

 

Abro muito os olhos e vejo aves que nadam no mar

e peixes que voam pelos céus
 

Atravesso a linha do comboio

como quem atravessa uma fronteira

é final de Agosto, está calor

mas sopra uma brisa refrescante

o azul chama-me, insistente
 

Caminho para ele estrada abaixo

atraído, consumido por ele

Um barco em terra

Um pomar de sequeiro

A estrada ladeada de jovens árvores vindas de longe

Avanço a custo

muros vedações edifícios

levantam-se em puro caos

e o único caminho

que me poderia levar mais perto

do azul intenso em que me quero

perder dissolver desaparecer

está guardado por um cão feroz

que me ladra ameaçador

 

Aceito a realidade

volto para trás

sobre os meus passos

atravesso de novo a linha do comboio

e sigo agora entre vedações

por um caminho de terra à sombra

de pinheiros mansos mas altivos

até à casa poema sonhada e realizada

por um fantasma


Estou só mas não sozinho

ouço o zumbir das cigarras

o ruído surdo de um carro

que avança sobre cascalho

sinto cheiros antigos

 
Encho-me de memórias

o vento acaricia-me a pele

despenteia-me o cabelo

subo de novo à varanda da casa poema

sentado à sua frente

de costas para ela

os olhos abertos no caderno em que escrevo

e encho-me finalmente de azul

o azul do céu o azul do mar

o azul da tinta com que escrevo este poema

 

Adeus!

terça-feira, 30 de agosto de 2016

SOU

Sou
Aqui e agora
A cada palavra que escrevo
À medida que o texto cresce
E no entanto
Fui
E no entanto
Serei
Por mais que esteja sempre
Aqui e agora
Verdade simples
Verdade profunda
Que este texto afirma
Ao mesmo tempo que nega

domingo, 28 de agosto de 2016

NOVE ANOS DEPOIS


a

 

Nove anos depois encontraram-no em sua casa, sentado no sofá. Estava morto e bem morto. Ficaram todos muito surpreendidos, menos ele, que ficou muito aliviado.

 

a

 

Nove anos depois de ter morrido escreveu o seu primeiro romance. Foi um enorme sucesso. A partir daí nunca mais escreveu.

 

a

 

Nove anos depois encontraram-se por acaso e quase não se conheceram. Ele parecia ter envelhecido quinze anos, ela parecia ter rejuvenescido dez.

 

a

 

Nove anos depois tinha mudado tanto que já não sabia quem era. Foi então que decidiu ser ele mesmo.

 

a

 

Nove anos depois a rua ainda falava da sua morte. As manchas de sangue na calçada continuavam insistentemente vivas.

 

 

a

 

Nove anos depois voltou a analisar o que acontecera e mais uma vez se admirou. O tempo criava sempre novos ângulos de abordagem.

 

a

 

Nove anos depois deixou de ter noção do tempo. Ou teria sido nove anos antes?

 

a

 

Nove anos depois de ter feito sessenta anos, festejou o seu sexagésimo aniversário. Há nove anos que assim acontecia.

 

a

 

Nove anos depois recomeçou. Sempre assim tinha sido, sempre assim seria.

 
...

 

sábado, 27 de agosto de 2016

WORK IN PROGRESS


As perguntas são as mesmas e nunca têm resposta, mas tu insistes.

Talvez afinal não te interessem as perguntas, talvez apenas te interessem as respostas.

Não escolheste o mundo nem as perguntas que se te impõem, é natural que insistas.

As respostas que encontras são as tuas respostas, porém parecem-se tanto umas com as outras como árvores numa floresta.

Avanças sem pressa, imerso na escrita como numa floresta redundante, em que tudo é verde e castanho.

Aqui e ali contemplas um formigueiro, aqui e ali surpreendes o voo de uma ave, aqui e ali admiras-te com a beleza de uma flor singela, mas é sempre a mesma floresta.

Procuras, procuras sempre, estás sempre à procura; não sabes muito bem se procuras semelhanças ou se procuras diferenças.

Dizes e escreves quase sempre a mesma coisa, nem outra coisa poderias fazer.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

O PIOR CEGO

Aqui e ali consulto o I Ching e ele foi uma das influências para os 64 textos que compõem o Guru de Algibeira, pequeno livro que, em conjunto com outro, integra o próximo livro que pretendo publicar.

O pior cego

O pior cego não é aquele que não quer ver, esse é apenas estúpido, teimoso, cretino; o pior é cego é aquele que não sabe que é cego. Duvida muito, duvida de tudo, mas duvida sobretudo do óbvio; é nas pequenas coisas de todos os dias que a verdade se esconde, a mesma verdade que procuras sem cessar nas entrelinhas do poema. E nunca te esqueças, a vida é feita de poesia, como dizia amiúde o poeta cego que tanto via.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

GREGUERIAS



Greguerias
 
***

Humorismo + metáfora = greguería.
 
***

A morte é hereditária.

A água não tem memória, por isso é tão limpa.

O café com leite é uma bebida mestiça.

O perfume das flores é o seu eco.

O livro é um pássaro com mais de cem asas para voar.

O mal do desejo é que regressa sem avisar.
 
(tradução minha)


 

 

 

 

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

9 - O QUE PODEMOS SABER/FAZER? (sobre lições de vida e sabedoria)



Era uma vez um homem a quem nada corria bem. Como era dado à reflexão, passava muito tempo a pensar na sua vida. Disciplina e persistência é tudo o que é preciso para obter o que desejamos: foi a esta conclusão que ele chegou finalmente. E se assim o pensou mais depressa o fez. Mas não havia nada a fazer. A disciplina e a persistência foram inúteis no seu caso. Escreveu um livro sobre o assunto, que se tornou um campeão de vendas, e foi feliz para sempre. Morreu, sem que se saiba porquê, num sete de Outubro.



O mestre zen tinha dois alunos que estavam sempre em desacordo. Se um afirmava alguma coisa logo o outro a negava e as discussões nunca tinham fim. Numa discussão mais acesa, um deles empurrou vigorosamente o outro, que caiu no chão desamparado. O mestre ia a passar e assistiu a tudo. Aproximou-se do aluno caído e ajudou-o a levantar-se. Depois, dirigindo-se aos dois, censurou-os com rudeza: quem não sabe dominar o seu discurso não sabe dominar as suas consequências. Os alunos olharam um para o outro, e depois para o mestre, e deram-lhe uma tremenda sova que o deixou prostrado.


sexta-feira, 19 de agosto de 2016

...


O POEMA

Há dias que o poema
me pedia que o escrevesse
Há dias que o poema
se nutria do meu sangue
Há dias que o poema
me oprimia como uma pele
E eu nada podia fazer
Lembrava-me que falaria
de um intenso momento
de felicidade
Lembrava-me que falaria
do inevitável retorno
da infelicidade
Lembrava-me que seria
um poema tranquilo e luminoso
como um sorriso triste
Mas por mais que o tenha
desejado escrever
não lhe consegui dar outra forma
a não ser esta.



terça-feira, 16 de agosto de 2016

Why I Still Write Poetry - Charles Simic



When my mother was very old and in a nursing home, she surprised me one day toward the end of her life by asking me if I still wrote poetry. When I blurted out that I still do, she stared at me with incomprehension. I had to repeat what I said, till she sighed and shook her head, probably thinking to herself this son of mine has always been a little nuts. Now that I’m in my seventies, I’m asked that question now and then by people who don’t know me well. Many of them, I suspect, hope to hear me say that I’ve come my senses and given up that foolish passion of my youth and are visibly surprised to hear me confess that I haven’t yet. They seem to think there is something downright unwholesome and even shocking about it, as if I were dating a high school girl, at my age, and going with her roller-skating that night.
Another question poets old and young are typically asked in interviews is when and why they decided to become poets. The assumption is that there was a moment when they came to realize there can be no other destiny for them but to write poetry, followed by the announcement to their families that had their mothers exclaim: “Oh God, what did we do wrong to deserve this?” while their fathers ripped out their belts and chased them around the room. I was often tempted to tell the interviewer with a straight face that I had chosen poetry to get my hands on all that big prize money that’s lying around, since informing them that there was never any decision like that in my case inevitably disappoints them. They want to hear something heroic and poetic, and I tell them that I was just another high school kid who wrote poems in order to impress girls, but with no other ambition beyond that. Not being a native speaker of English, they also ask me why I didn’t write my poems in Serbian and wonder how I arrived at the decision to ditch my mother tongue. Again, my answer seems frivolous to them, when I explain that for poetry to be used as an instrument of seduction, the first requirement is that it be understood. No American girl was likely to fall for a guy who reads her love poems in Serbian as they sip Coke.
The mystery to me is that I continued writing poetry long after there was any need for that. My early poems were embarrassingly bad, and the ones that came right after, not much better. I have known in my life a number of young poets with immense talent who gave up poetry even after being told they were geniuses. No one ever made that mistake with me, and yet I kept going. I now regret destroying my early poems, because I no longer remember whom they were modeled after. At the time I wrote them, I was reading mostly fiction and had little knowledge of contemporary poetry and modernist poets. The only extensive exposure I had to poetry was in the year I attended school in Paris before coming to the United States. They not only had us read Lamartine, Hugo, Baudelaire, Rimbaud, and Verlaine, but they made us memorize certain poems of theirs and recite them in front of the class. This was such a nightmare for me as a rudimentary speaker of French—and guaranteed fun for my classmates, who cracked up at the way I mispronounced some of the most beautiful and justly famous lines of poetry in French literature—that for years afterwards I couldn’t bring myself to take stock of what I learned in that class. Today, it’s clear to me that my love of poetry comes from those readings and those recitations, which left a deeper impact on me than I realized when I was young.
There’s something else in my past that I only recently realized contributed to my perseverance in writing poems, and that is my love of chess. I was taught the game in wartime Belgrade by a retired professor of astronomy when I was six years old and over the next few years became good enough to beat not just all the kids my age, but many of the grownups in the neighborhood. My first sleepless nights, I recall, were due to the games I lost and replayed in my head. Chess made me obsessive and tenacious. Already then, I could not forget each wrong move, each humiliating defeat. I adored games in which both sides are reduced to a few figures each and in which every single move is of momentous significance. Even today, when my opponent is a computer program (I call it “God”) that outwits me nine out of ten times, I’m not only in awe of its superior intelligence, but find my losses far more interesting to me than my infrequent wins. The kinds of poems I write—mostly short and requiring endless tinkering—often recall for me games of chess. They depend for their success on word and image being placed in proper order and their endings must have the inevitability and surprise of an elegantly executed checkmate.
Of course, it is easy to say all this now. When I was eighteen years old, I had other worries. My parents had split up and I was on my own, working in an office in Chicago and attending university classes at night. Later on, in 1958, when I moved to New York, I led the same kind of life. I wrote poems and published a few of them in literary magazines, but I didn’t expect that any of that activity would amount to much. People I worked with and befriended had no inkling that I was a poet. I also painted a little and found it easier to confess that interest to a stranger. All I knew with any certainty about my poems is that they were not as good as I wanted them to be and that I was determined, for my own peace of mind, to write something I wouldn’t be embarrassed to show my literary friends. In the meantime, there were other more pressing things to attend to, like getting married, paying the rent, hanging out in bars and jazz clubs, and every night before going to bed baiting the mousetraps in my apartment on East 13th Street with peanut butter.